sexta-feira, 9 de abril de 2010
Aconteceu no Natal
Aconteceu no Natal. Na casa onde o Roberto e eu estávamos, apareceu, perdida pela rua, uma cachorrinha bem velha. Era toda preta, com muitos pelos brancos, os olhos embaçados pela catarata. Andava com dificuldade, como um carro rebaixado que viaja com sobrepeso. Estava como um zumbi, à procura da casa, do dono, de rumo. A Simone e eu a resgatamos e, deixando-a dentro do quintal, demos a ela água e um quibe, que foi a única coisa pela qual ela se interessou. Mas como - pensamos todos nós –o dono abandona uma cachorra velha dessas pelas ruas? Na certa os fiadaputa estão curtindo a praia e desprezaram o bichinho. E me deu, naquele momento, um aperto tão grande no coração, uma sensação de que o mundo não era assim um lugar bom, com pessoas amáveis e justas. Depois de uma noite conosco, o animal recuperou um pouco as forças e passou a andar em volta do quintal da casa, zumbizando novamente, com uma aflição que reconhecemos só em gente. Que saudade do dono, que sanha de encontrá-lo, pensei. Não havia mimo que fizesse a cachorra se desligar daquele comichão, e continuava a perambulação insana. Mas foi à tarde, no dia de Natal, que o inesperado aconteceu. Um carro parou na rua, e uma moça, desesperada, passou a andar de casa em casa, até chegar onde estávamos, perguntando se não tínhamos visto uma bassé preta. Eu respondi prontamente "Está aqui!" e gritei para a Simone, que veio correndo ver o que era. Trouxemos a cachorra e a moça agarrou-se ao animal com força e lágrimas. A cachorra velha ofegava e se retorcia de felicidade, abanando a cauda como um pára-brisa desgovernado. Eu não resisti à cena: chorei também. Num momento de descuido, explicou-nos, haviam deixado o portão aberto; ela tinha saído; já não enxergava bem e não conseguiu encontrar o caminho de casa. A dona voltou a agradecer muito, pegou o bichinho ainda emocionada, ainda não acreditando, e foi embora.Mas, para mim, o acontecido tinha me deixado aturdida, com um significado mais forte do que o aparente alívio de ter encontrado o lar do animal. O gesto me fizera resgatar um sentimento que muitas vezes a gente pensa ter perdido em meio a julgamentos e desesperança: a boa-fé nas pessoas.E naquela noite, todos nós da casa, agora mais risonhos, mais leves e em paz, levantamos um brinde. Era Natal, agora sim.
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