sexta-feira, 9 de abril de 2010

O melhor lugar do mundo é aqui e agora

Nas eleições presidenciais de 2006, nós aqui do Tribunal Eleitoral de São Paulo recebemos uma comissão da República Dominicana para acompanhar a apuração do pleito. Como todo o mundo estava muito ocupado, resolveram mandar minha chefe, que por sua vez me escalou para esse trabalhinho maneiro, e lá fui eu firme e forte, disposta a disparar algum "por supuesto" aprendido com a Penélope Cruz nos filmes do Almodóvar . Eu só tinha que recepcioná-los, ser simpática, levá-los para um tour pelo prédio, mostrar a urna eletrônica, essas coisinhas básicas... Quando eles chegaram (uma mulher e dois homens, todos funcionários da embaixada), foram só sorrisos e amabilidades. Eles estavam muito empolgados com a visita e, cada vez que chegávamos em algum departamento e mostrávamos determinado procedimento ou equipamento, era um tal de oh, uh, uia (uia não teve, mas foi parecido...) que dava gosto de ver. A todo momento eles queriam tirar foto e pediam para que eu aparecesse no retrato, como forma de serem gentis. Como eu tenho o senso da noção, dava um sorrisinho sem-graça e me escondia atrás da samambaia. Ao final da visita, na sala de imprensa, conseguimos uma entrevista deles para a Globo e aí foi o ápice. O sujeito que foi entrevistado ficou em êxtase e, na hora da despedida, abraçou-me como se eu fosse uma parente distante muito querida. Figurinhas esses dominicanos..., pensei na época com os meus sempre mal pregados botões.Para quem não sabe, a República Dominicana faz divisa com o Haiti. O livro "A fantástica vida breve de Oscar Wao", do escritor Junot Díaz, ganhador do prêmio Pulitzer pelo livro em 2008, descreve, ao longo do enredo muito bem construído, um pouco do que foi a história daquele país. Segundo Junot, a República Dominicana teve um ditador execrável: Trujillo Molina, que governou o país de 1930 a 1961, com uma brutalidade implacável. Eis como ele o descreve: "mulato corpulento e sádico, com olhos de suíno, clareava a pele com vários produtos, gostava de sapato plataforma e colecionava acessórios masculinos da era napoleônica. (...) chegou a controlar quase todos os aspectos da vida econômica, social, cultural e política do país, por meio de uma mescla poderosa de violência, intimidação, massacre, estupro, cooptação e terror; tratava o país como se fosse uma colônia e ele, o senhor.(...)um personagem tão vil, grotesco e perverso, que poucos historiadores e escritores conseguiram de fato dimensioná-lo".... Ao ler esse livro, não pude deixar de relembrar a tal da visita: o entusiasmo daquelas pessoas em presenciar uma eleição na América Latina que eles consideravam um verdadeiro "show de democracia", segundo as palavras deles. Apesar de sempre estarem em situação melhor do que os vizinhos haitianos mesmo antes da última desgraça que se abateu sobre o Haiti, foi um povo muito sofrido, muito subjugado. Daí a euforia com que eles assistiam a todo o final das eleições no Brasil. Para eles acharem tudo aqui tão maravilhoso e cor-de-rosa é talvez porque ainda estejam pagando pelo ranço de um passado tão cruel.E, apesar de estarmos muito longe do ideal, me deu um certo alívio de morar nesta nossa terrinha-de-meu-Deus; até uma vontadezinha de cantarolar a música do Gil, meio velhusca mas sempre profunda : "o melhor lugar do mundo é aqui.... e agora". Por supuesto.

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