sexta-feira, 9 de abril de 2010

Reminiscências 1 - tempo de macacadas

Quando o filme King Kong chegou ao Brasil, eu tinha uns 12 anos (estou falando, é claro, da refilmagem, pois a primeira versão é de 1933...não sou tão véia assim). Todas as crianças da rua ficaram num verdadeiro alvoroço. Nessa época eu morava numa vila de casas em São Caetano do Sul, ABC paulista. Eram uns sobradinhos geminados antigos, numa rua sem saída. A criançada da vila (era assim que chamávamos) se reunia aos domingos para ir ao cinema. Naquela época assistir a um filme era uma pechincha, o equivalente a uma passagem de ônibus urbano, por isso todo santo final de semana rolava um filmezinho, um desenho... O então cine Olido colocou um pôster em tamanho real do King Kong (13m), bem na entrada do cinema, em frente à calçada. A gente passava e entortava o pescoço olhando aquele bichão. No dia da estréia estávamos todos lá, prontos para assistir a película e dar muitos pulos na cadeira. E não parou por aí. Uns meses depois, esse boneco utilizado no filme chegou ao playcenter, em São Paulo, e meu pai e minha mãe nos levaram para ver o dito-cujo. Eu me lembro que senti muito medo ao vê-lo dando urros e arreganhando os dentes. Ainda aproveitando esse "momento símio", fomos a uma outra atração naquele mesmo dia: a monga. Bem, a monga era uma mulher que se transformava, segundo o anúncio do parque, em uma macaca de verdade. Lá fomos nós, então. Uma moça entrou numa gaiola, toda dengosa, e uma música começou a tocar. Um jogo de luzes piscantes deu início a algo que nos deixou estupefatos. A música foi ficando mais alta e, no meio daquele turbilhão de sons, luzes, fumaça e confusão, a moçoila foi se transformando numa macaca. E que macaca porreta. Ela meteu um pontapé na gaiola, que voou longe, começou a se esgoelar e fez que ia pular na gente. Eu saí correndo e fui parar no meio de uma rua do parque, com o coração disparado. O meu pai veio me buscar rindo. Eu voltei a tempo de ver a monga virar a inocente e sonsa mocinha. E, naquela época, nem sequer questionamos a picaretice do número.
Na singeleza de outros tempos, posso dizer que essa foi uma das coisas mais emocionantes que aconteceu comigo na infância. E só de imaginar que momentos como esse eram suficientes para encher o coração da gente de alegria e riso, dá uma nesga de esperança de que possamos ver as coisas com mais leveza e humor nos dias de hoje...ou de que pelo menos não levemos tão a sério, no nosso círculo do dia a dia, as macacadas daqueles que insistem em querer que a gente pague micos, king kongs e mongas fora dos parques de diversão. Brinquemos de ser criança...

Nenhum comentário:

Postar um comentário